4.10.09

A noite

Espero que a torrente chuva nos embale em sonhos profundos...

e afague com um sopro nossas temporas
e que as espumas delisem sobre os pés flutuantes como quem faz cócegas em crianças
e toque sinceramente nossas costas como alívio depois do fogo

...a calmaria...

sobre a revolução do corpo sedento em águas salgadas de ondas que se debatem solitárias dos pensamentos distantes...
a melancolia do silêncio do dia sombrio...
a respiração ofegante de quem está em alto mar...

e corre... o risco... horizonte...
de vir à superfície ou se perder de vez em alto mar...

e num sorriso sob o guarda-chuva
a
gota
d'água
...

inundemo-nos...
mesmo que o sentimento escorra de nossas mãos...
(por Natássia Garcia)
Escrito em 25 de outubro de 2004

O risco do presente





... os olhos marejados lacrados-dormentes riscados de areia onírica avistavam uma estrangeira em dia de mudança.

(Era mais cômodo deixar o pó a extrair a memória ríspida do sonho em ruínas. Preferiu lavar a alma.)


Levantou-se.
Lenta.
Tonta.
Míope.
Viva.

Tinha ainda
tinta das digitais dos dedos;
a face marcada da cama;
a impressão da meia-luz do abajur;
a falta do lençol;
a sombra do domingo.

Tinha também
o peso da pélvis sobre as pernas bambas;
os seios com o gosto dos beijos;
e, sobretudo, o sexo pulsava do dia de ontem.

Caminhou pelo labirinto da casa vazia - aparente - conhecida.
Tirou a roupa.
Observou no espelho o reflexo não refletido
(Eco e Narciso)
Abriu o registro.
Ouviu o som das palavras reverberarem junto à fumaça.
Deixou-se molhar das partículas delicadas...

Experimentou o cheiro de lembrança brotando nas narinas,
a água penetrando a boca entreaberta umidecendo a língua.
Cerrou as pálpebras com leveza
e sem pestanejar mergulhou de novo nas águas remanescentes da noite fria.
Sentiu, serena, a visão das gotas sedentas
desvendando
de-vagar
a máscara obsoleta
na conquista das meninas-dos-olhos do menino nú.


(Música: inspiração-expiração
Tempo: parado-latente
lugar: invisível-indizível-indivisível)


A janela revela agora a doçura, o profundo, a beleza.
Os fechos de vapor no vidro são fissuras no imaginário.

Chuva fina cai discreta
Dentro
Fora
alegria transborda disritmia no peito.
As folhas correm do vento
mas é inevitável o encontro:


Ao invés do fogo arrebatador
temos o sopro das horas contando a nosso favor
sem a pressa de atar correntes
e lançar faíscas acendendo todos os fósforos de uma só vez.

Temos a calma,
o urgir de novos afetos,
o diálogo sincero e cortante entre os nosso dentes.

Temos o tremor da derme,
a segunda pele em contato,
os lábios conhecendo a carne,
o temor do descuidado amargo.

O sentido de nós
não é o passado
suspirando à nuca
e grudado em calcanhares;
não é represa de um "outro"
mas a confluência com o estranho
permeando o lençol freático
no cultivo da terra fértil.

De repente,
Entrega ao risco como presente.


Despertou do invento.
Abriu os olhos.
Voltou a si.
Fechou o registro.
Secou-se.
Vestiu os nús.
E partiu.
Só.


(por Natássia Garcia)


Escrita em 5 de dezembro de 2007


Quadro de Edgar Degas

30.4.09

Corpo-sonho

Ela caminhava naquela casa escura, uma casa parecida com casa de fazenda.
A antiga moradora, tinha o ar astuto e ranzinza, levava Maya por entre os cômodos contando as histórias do sempre. Passaram por uma mesa grande e comprida, daquelas com bancos também grandes e compridos. Mesa-medieval. Parecia caber a família inteira. Se houvesse família.
O quintal e a mesa pareciam ser espaços para a solidão. O nome da antiga moradora, dizem, tem origem no russo, mas suas ascendências eram com certeza, alemãs. A sábia, mulher ligada às ciências, tinha seu andar pesado de cabocla e guardava a alegria de outrora, contudo, ainda dava presentes que muitos não prestavam atenção.
Ela molhava as plantas diariamente, conversava com os animais do quintal como se fossem filhos e, os filhos, Estes homens! Eram tão amados. Ah, estes filhos! Dos quais ela cuidava em toda vida deles, davam tantos pequenos trabalhos. “Uma luta para eles ajudarem nas tarefas domésticas”, ela dizia. Sim. A casa.
Ela continuava mostrando a casa à Maya. Os móveis, antigos-guardados, escuros, com cheiro de madeira molhada e mofada. Cheiro forte que levava às lembranças de odores brutos, agressivos. Mas a casa embora aparentemente grotesca, escondida entre os recônditos daquela família era de força espiritual sublime, no entanto, somente anjos reconheciam o poder.
Uma casa com vida interior silente-adormecida. Não se enganem com a descrição da sábia. Ela era mais nova que imaginam e tinha muita cor e vida. As sombras às vezes revelavam estas luzes contrastantes. Ora ácida ora amarga ora astuta ora tenra ora amável ora salgada de lágrimas pela saudade. Maya escutava com atenção a história das banheiras dos filhos: “Duas banheiras de madeira foram guardadas... uma delas era dos meninos... ficaram aqui na via da calha. Era mais fácil colocar e tirar a água. Hoje ninguém mais toma banho, então, uso como pia. Lavo a louça aí! E deixo aí pra esperar os netos, não é?” Maya achou estranho.
Mas sentiu um prazer, uma pontinha de vontade de ser mãe e poder ter uma banheira assim para a cria. Imaginou quão especial não seria um banho em uma criança ainda muito nova. Uma criança que ainda escorrega por entre os dedos porque desconhece a segurança do homem, ainda mole, viva mais que nunca, esperneando suas primeiras conquistas e olhando arregalada as grandes mãos que passeiam no seu corpo. Não compreendendo porque aquela água é menos viscosa e menos aconchegante que líquido amniótico da mãe. Maya foi interrompida em seus pensamentos quando chegou aquele que é filho do tempo. Seu homem-menino, cujo nome era de origem hebraica (segundo diziam), entrou como numa rajada e com papéis em uma das mãos
“São aqueles seus papéis, Maya, vou guardar no sótão. Parecem coisas velhas!”, disse o filho primogênito da Sábia, filho de nome de anjo, o companheiro de Deus, curado por Deus.


(por Natássia Garcia)
Escrito em dezembro de 2009.

14.9.08

(A) manhã colina




Algum cheiro de poesia e algum sabor de literatura boa me visitaram esta manhã. Derrubaram as paredes mas entraram pelas frestas. Invadiram as narinas ainda dormentes dos sonhos da gente.
Provocaram memória da noite em bruma do alento em homem e me fizeram sorrir.


Joguei as cobertas fora,

Me despi dos passados na cama,

Peguei meu caderno amarelo e escrevi!

Resenhei como uma criança pequena que não sabe ler faz.

Quando não haviam mais palavras
Me abri.
Escancarei as matérias brutas e cerradas da vida do corpo da casa do quarto
De repente o sol me bateu na cara à vista do lago ao longe.
Deixei a brisa fresca e fria passar por entre meu sexo e gargalhei!


(por Natássia Garcia)

Escrito em 07 de agosto de 2007.

Quadro de Courbet, L'origine du monde

Uma poesia de quem não sabe II



Silêncio.
Se
partires
fiques
apenas com um pedaço
ao menos.

Porque seu toque foi... impressionante
Preciso.

Em que lugar está a sensação de que o desejo não pode ser?

Eu não sei...
Um infinito...
Mar aberto...
Olhos ardentes - marejados
sorriso largo
dedos fincados na transparência da água salina.

Esta manhã tem gosto de orvalho e de sol.
Azedo verde-limão.
Amarga casca de romã.
Pés descalços em lugar nenhum.

A liberdade está
em permitir que nada está escrito
na palavra que não acerta o que se quer dizer
no sonho macio
arranhado da garganta
cortante melodia.

Nos descaminhos desses dias me surpreendi
lembrando do gosto da sua pele...
um imprevisto meigo e tenro.
Arriscado e tão envolvente quanto seu sorriso.
Em um turbilhão de falta de respostas
certamente não mentiria a mim mesma
a possibilidade de experimentar o gozo de um momento feliz.

À flor da pele
No infinitivo do descaminhar
carinho e prazer são partes de um tempo alegre
com um pouco mais de música
e afeto
e a lembrança de um afago da noite.

Você poderia ter sido quem não era,
entretanto,
meu olhar tão errado
confirmou a beleza que você se tornou.
Por mais ou menos que não se queira
Quisemos.
E o presente
passado
agora
já é
o bastante.

Vou
apoiar
minhas
mãos sobre o seu peito
suspirar
o perfume dos seus cabelos
e
vou-me
embora com o ar de quem nunca ficou.

nunca ficou!

(por Natássia Garcia)
Escrito em 2005
Fotografia de Raphael Bubeck Carvalho

Uma poesia de quem não sabe I




um fim de noite não muito amável
e uma pequena (pequenininha) mulher acuada por não saber dizer



talvez...

porque...

não sei...

uma gota de orvalho escorrega leve e lentamente...
um cronômetro conta o tempo na televisão...
um homem numa foto corre para lugar algum...
um pé sem meia adormece ao relento...
uma parte do meu corpo lateja...

meus olhos estão arranhados
cansados

vermelhos

dedos que não param o tempo
dedos que tenho ao sentir
ir...
dormir...
calar a escuridão da noite bárbara...

... hoje... esperando acordar amanhã...

... até amanhã...



(por Natássia Garcia)

Escrito em 23/05/2005


Foto de Raphael Bubeck Carvalho

O beijo


Ontem encontrei gosto alegre
toque mais frágil... su(ave)...

Som ritmado de risada levemente infantil
ao passo de sorrisos maliciosos.
Céu de boca largo
Grandes lábios em meio aos dentes
Suspiros espasmódicos contentes.
Lago de olhos profundos
vidrados em qualquer tempo de música (in)terna...

Pausadamente olhando de lado vejo negra penugem na nuca de cheiro doce.
Acalento os cabelos por ora revoltos sempre perdidos na cor negra do espaço.

Num movimento lento alento de entrelaço da língua leve na boca macia e tenra.

Solfeja misterioso encanto de hoje e transforma paixão em chama branda ... provoca ardente sol... exalta pulsos... colore vermelha face... sapecas bochechas... dilata pupilas...
Menina dos olhos que risca fósforo
lança ao vento e acende tudo aquilo que trisca.

Na magia do dia: beijo sai faísca
No sonho da noite: febre vira brisa
Na aurora amor se confunde em bruma

Da janela vejo: desnudamento

E atrás do olhar em que nos encontramos
(presentes)
experimentamos arriscar-nos no fogo como quem sinceramente sente.


(por Natássia Garcia)

Escrito em 14 de dezembro de 2006

Quadro de Gustav Klimt "O beijo"