
... os olhos marejados lacrados-dormentes riscados de areia onírica avistavam uma estrangeira em dia de mudança.
(Era mais cômodo deixar o pó a extrair a memória ríspida do sonho em ruínas. Preferiu lavar a alma.)
(Era mais cômodo deixar o pó a extrair a memória ríspida do sonho em ruínas. Preferiu lavar a alma.)
Levantou-se.
Lenta.
Tonta.
Míope.
Viva.
Tinha ainda
tinta das digitais dos dedos;
a face marcada da cama;
a impressão da meia-luz do abajur;
a falta do lençol;
a sombra do domingo.
Tinha também
o peso da pélvis sobre as pernas bambas;
os seios com o gosto dos beijos;
e, sobretudo, o sexo pulsava do dia de ontem.
Caminhou pelo labirinto da casa vazia - aparente - conhecida.
Tirou a roupa.
Observou no espelho o reflexo não refletido
(Eco e Narciso)
Abriu o registro.
Ouviu o som das palavras reverberarem junto à fumaça.
Deixou-se molhar das partículas delicadas...
Experimentou o cheiro de lembrança brotando nas narinas,
a água penetrando a boca entreaberta umidecendo a língua.
Cerrou as pálpebras com leveza
e sem pestanejar mergulhou de novo nas águas remanescentes da noite fria.
Sentiu, serena, a visão das gotas sedentas
desvendando
de-vagar
a máscara obsoleta
na conquista das meninas-dos-olhos do menino nú.
(Música: inspiração-expiração
Tempo: parado-latente
lugar: invisível-indizível-indivisível)
A janela revela agora a doçura, o profundo, a beleza.
Os fechos de vapor no vidro são fissuras no imaginário.
Chuva fina cai discreta
Dentro
Fora
alegria transborda disritmia no peito.
As folhas correm do vento
mas é inevitável o encontro:
Ao invés do fogo arrebatador
temos o sopro das horas contando a nosso favor
sem a pressa de atar correntes
e lançar faíscas acendendo todos os fósforos de uma só vez.
Temos a calma,
o urgir de novos afetos,
o diálogo sincero e cortante entre os nosso dentes.
Temos o tremor da derme,
a segunda pele em contato,
os lábios conhecendo a carne,
o temor do descuidado amargo.
O sentido de nós
não é o passado
suspirando à nuca
e grudado em calcanhares;
não é represa de um "outro"
mas a confluência com o estranho
permeando o lençol freático
no cultivo da terra fértil.
De repente,
Entrega ao risco como presente.
Despertou do invento.
Abriu os olhos.
Voltou a si.
Fechou o registro.
Secou-se.
Vestiu os nús.
E partiu.
Só.
Lenta.
Tonta.
Míope.
Viva.
Tinha ainda
tinta das digitais dos dedos;
a face marcada da cama;
a impressão da meia-luz do abajur;
a falta do lençol;
a sombra do domingo.
Tinha também
o peso da pélvis sobre as pernas bambas;
os seios com o gosto dos beijos;
e, sobretudo, o sexo pulsava do dia de ontem.
Caminhou pelo labirinto da casa vazia - aparente - conhecida.
Tirou a roupa.
Observou no espelho o reflexo não refletido
(Eco e Narciso)
Abriu o registro.
Ouviu o som das palavras reverberarem junto à fumaça.
Deixou-se molhar das partículas delicadas...
Experimentou o cheiro de lembrança brotando nas narinas,
a água penetrando a boca entreaberta umidecendo a língua.
Cerrou as pálpebras com leveza
e sem pestanejar mergulhou de novo nas águas remanescentes da noite fria.
Sentiu, serena, a visão das gotas sedentas
desvendando
de-vagar
a máscara obsoleta
na conquista das meninas-dos-olhos do menino nú.
(Música: inspiração-expiração
Tempo: parado-latente
lugar: invisível-indizível-indivisível)
A janela revela agora a doçura, o profundo, a beleza.
Os fechos de vapor no vidro são fissuras no imaginário.
Chuva fina cai discreta
Dentro
Fora
alegria transborda disritmia no peito.
As folhas correm do vento
mas é inevitável o encontro:
Ao invés do fogo arrebatador
temos o sopro das horas contando a nosso favor
sem a pressa de atar correntes
e lançar faíscas acendendo todos os fósforos de uma só vez.
Temos a calma,
o urgir de novos afetos,
o diálogo sincero e cortante entre os nosso dentes.
Temos o tremor da derme,
a segunda pele em contato,
os lábios conhecendo a carne,
o temor do descuidado amargo.
O sentido de nós
não é o passado
suspirando à nuca
e grudado em calcanhares;
não é represa de um "outro"
mas a confluência com o estranho
permeando o lençol freático
no cultivo da terra fértil.
De repente,
Entrega ao risco como presente.
Despertou do invento.
Abriu os olhos.
Voltou a si.
Fechou o registro.
Secou-se.
Vestiu os nús.
E partiu.
Só.
(por Natássia Garcia)
Escrita em 5 de dezembro de 2007
Quadro de Edgar Degas

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